sábado, 18 de setembro de 2021

Análise das Melhores Redações / ENEM 2016

  Provas e Gabaritos do ENEM 2016 (Oficiais) – vocênoenem

 Comentário da Redação do Enem 2016 - Brasil Escola

O Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) liberou para os participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) o acesso aos espelhos dos textos da prova de redação das duas edições do ano de 2016, já que devido às ocupações de várias escolas públicas por todo o país, houve uma segunda aplicação do exame.

No mesmo dia, o portal G1 divulgou algumas das setenta e sete redações que obtiveram a nota máxima da correção da redação do ENEM e, neste texto, iremos analisar um desses textos, cuja autoria é de Larissa Cristine Ferreira, de 20 anos.

REDAÇÃO

Orgulho Machadiano

Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, diz em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. Talvez hoje ele percebesse acertada sua decisão: a postura de muitos brasileiros frente a intolerância religiosa é uma das faces mais perversas de uma sociedade em desenvolvimento. Com isso, surge a problemática do preconceito religioso que persiste intrinsecamente ligado à realidade do país, seja pela insuficiência de leis, seja pela lenta mudança de mentalidade social.

É indubitável que a questão constitucional e sua aplicação estejam entre as causas do problema. Conforme Aristóteles, a poética deve ser utilizada de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De maneira análoga, é possível perceber que, no Brasil, a perseguição religiosa rompe essa harmonia; haja vista que, embora esteja previsto na Constituição o princípio da isonomia, no qual todos devem ser tratados igualmente, muitos cidadãos se utilizam da inferioridade religiosa para externar ofensas e excluir socialmente pessoas de religiões diferentes.

Segundo pesquisas, a religião afro-brasileira é a principal vítima de discriminação, destacando-se o preconceito religioso como o principal impulsionador do problema. De acordo com Durkheim, o fato social é a maneira coletiva de agir e de pensar. Ao seguir essa linha de pensamento, observa-se que a preparação do preconceito religioso se encaixa na teoria do sociólogo, uma vez que se uma criança vive em uma família com esse comportamento, tende a adotá-lo também por conta da vivência em grupo. Assim, a continuação do pensamento da inferioridade religiosa, transmitido de geração a geração, funciona como base forte dessa forma de preconceito, perpetuando o problema no Brasil.

Infere-se, portanto, que a intolerância religiosa é um mal para a sociedade brasileira. Sendo assim, cabe ao Governo Federal construir delegacias especializadas em crimes de ódio contra religião, a fim de atenuar a prática do preconceito na sociedade, além de aumentar a pena para quem o praticar. Ainda cabe à escola criar palestras sobre as religiões e suas histórias, visando a informar crianças e jovens sobre as diferenças religiosas no país, diminuindo, assim, o preconceito religioso. Ademais, a sociedade deve se mobilizar em redes sociais, com o intuito de conscientizar a população sobre os males da intolerância religiosa. Assim, poder-se-á transformar o Brasil em um país desenvolvido socialmente, e criar um legado de que Brás Cubas pudesse se orgulhar.

ANÁLISE

Podemos perceber que se trata de uma dissertação-argumentativa com a estrutura composicional adequada e clássica: divisão em quatro parágrafos, sendo o primeiro o parágrafo introdutório, o segundo e o terceiro os de desenvolvimento e o quarto e último o da conclusão. Além disso, é um texto escrito da maneira correta em relação ao estilo: linguagem impessoal, objetiva e formal, seguindo a norma culta da Língua Portuguesa escrita e que atende ao tema da proposta de redação da primeira edição do ENEM 2016: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil.

Já na primeira oração do texto, a candidata relaciona a intolerância e o preconceito religioso com a frase final do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, um dos maiores clássicos da literatura brasileira, de Machado de Assis: “não tive filhos; não deixei para ninguém o legado da nossa miséria”. Como avaliadora, não penso que a autora estabeleceu tal relação com consistência; não acredito que esta passagem literária seja a melhor opção para dialogar com o tema da proposta, mas, mesmo assim, avaliadora não deve gostar do texto e sim corrigi-lo dentro da grande de correção e, pensando neste ponto, a candidata pontuou na segunda competência, quando relaciona o tema com outras disciplinas, assim como fez ao citar Aristóteles e Durkein, este por sua vez, muito melhor inserido do que Machado de Assis.

Por meio de adjetivos como “perversas”, Larissa coloca sua opinião, repudiando a intolerância religiosa e argumentando que a isonomia constitucional não é, na prática, realizada, já que pessoas são excluídas por causa da sua religião. A autora também cita “minorias religiosas”, mas não explica ao leitor quais religiões e/ou crenças são consideradas minorias em um país cuja população é, em sua maioria, cristã, dividida em, basicamente, duas grandes frentes: católicos e evangélicos.

No terceiro parágrafo, a candidata refere-se, por meio do discurso indireto, à coletânea de textos motivadores, quando escreve que, segundo pesquisas, as religiões afro-brasileiras são as principais vítimas de preconceito, mas não cita nenhum exemplo. No mesmo trecho, Larissa explica que grande parte deste problema advém da criação de crianças por famílias preconceituosas.

Na conclusão, a autora cita três propostas de intervenção social, cada uma dirigida a uma instância da sociedade. Ao Governo Federal, caberia a criação de delegacias especializadas em crimes de ódio, especialmente no que concerne a intolerância religiosa; às escolas ficaria a realização de palestras e a sociedade deve se mobilizar contra este tipo de discriminação, principalmente nas redes sociais.

Este texto, portanto, nos mostra que uma dissertação-argumentativa clássica e simples pode alcançar a nota máxima no ENEM.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Análise das Melhores Redações / ENEM 2015

 

Como baixar e estudar com Provas do Enem 2015 | vocênoenem

Redação Enem 2015 | EducaBras 

          É inegável o fato de que, na sociedade brasileira contemporânea, a igualdade de gêneros é a logo que existe apenas na teoria. Medidas como a criação da Lei Maria da Penha e da Delegacia da Mulher, apesar de auxiliarem na fiscalização contra a violência ao sexo feminino e na proteção das vítimas, são insuficientes e pouco eficazes, algo comprovado através da alta taxa de feminicídios ocorridos no país, além dos enormes índices de relatos de vítimas de violência.

         O aumento notório de crimes contra a mulher realizados na última década deve-se a inúmeros fatores. A completa burocracia presente nos processos de atendimento às vítimas de estupro, por exemplo, refuta mulheres que apresentam traumas e não recebem acompanhamento psicológico adequado, sendo orientadas a realizar o exame de corpo de delito, procedimento, por vezes, invasivo. Além disso, é comum que o relato da vítima tenha sua veracidade questionada, não recebendo a atenção necessária. Com o afastamento de possíveis denúncias, não há redução no número de assassinatos e de episódios violentos.

     A cultura machista em que estamos inseridos dissemina valores como a culpabilização da vitima: muitas vezes, a mulher se cala porque pensa que é a culpada pela violência que sofre. Acredita-se, também, que apenas a violência física e sexual deve ser denunciada, ou que a opressão moral é algo comum. A passividade diante de tais situações cede espaço para o crescimento de comportamentos violentos dentro da sociedade.

        Tendo em vista as causas dos altos índices de violência contra a mulher no Brasil, é necessário que haja intervenção governamental (QUEM) para aprimorar os órgãos de defesa contra tais crimes, de modo a tornar o atendimento mais rápido e atencioso. (DETALHAMENTO 1) O mais importante, no entanto, é atingir a origem do problema (DETALHAMENTO 2) e instituir em escolas aulas obrigatórias sobre igualdade de gênero, (O QUE) apresentando de forma mais simples conceitos desenvolvidos, por exemplo, por Simone de Beauvoir, (COMO) de modo a desconstruir desde cedo ideias preconceituosas que são potenciais estimulantes para futuros comportamentos violentos”. (PARA QUE)

 

Sofia Dolabela Cunha 

https://www.redacaoperfeita.com

Acesso em: 8 de março de 2020, às 15h34.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Análise das Melhores Redações / ENEM 2014

 Inscrições para o Enem 2014 começaram nesta segunda-feira | Etec Adolpho  Berezin

Em 2014, o exame trouxe como Proposta de Redação o tema Publicidade infantil em questão no Brasil. Como textos de apoio, a proposta continha um texto jornalístico em que discute se a publicidade infantil deve ser proibida no Brasil, um infográfico sobre a publicidade para crianças no mundo e um texto sobre a criança como o consumidor do futuro.

Veja:

 
Enem 2014 - Professora montes-clarense acerta outra vez tema da Redação do Enem  2014 | Jornal Montes Claros

 

Veja, a seguir, um texto produzido com muita competência e, por isso, obteve a nota máxima.

(Sem título)

A publicidade infantil movimenta bilhões de dólares e é responsável por considerável aumento no número de vendas de produtos e serviços direcionados às crianças. No Brasil, o debate sobre a publicidade infantil representa uma questão que envolve interesses diversos. Nesse contexto, o governo deve regulamentar a veiculação e o conteúdo de campanhas publicitárias voltadas às crianças, pois, do contrário, elas podem ser prejudicadas em sua formação, com prejuízos físicos, psicológicos e emocionais.

Em primeiro lugar, nota-se que as propagandas voltadas ao público mais jovem podem influir nos hábitos alimentares, podendo alterar, consequentemente, o desenvolvimento físico e a saúde das crianças. Os brindes que acompanham as refeições infantis ofertados pelas grandes redes de lanchonetes, por exemplo, aumentam o consumo de alimentos muito calóricos e prejudiciais à saúde pelas crianças, interessadas nos prêmios. Esse aumento da ingestão de alimentos pouco saudáveis pode acarretar o surgimento precoce de doenças como a obesidade.

Em segundo lugar, observa-se que a publicidade infantil é um estímulo ao consumismo desde a mais tenra idade. O consumo de brinquedos e aparelhos eletrônicos modifica os hábitos comportamentais de muitas crianças que, para conseguir acompanhar as novas brincadeiras dos colegas, pedem presentes cada vez mais caros aos pais. Quando esses não podem compra-los, as crianças podem ser vítimas de piadas maldosas por parte dos outros, podendo também ser excluídas de determinados círculos de amizade, o que prejudica o desenvolvimento emocional e psicológico dela.

Em decorrência disso, cabe ao Governo Federal e ao terceiro setor a tarefa de reverter esse quadro. O terceiro setor – composto por associações que buscam se organizar para conseguir melhorias na sociedade – deve conscientizar, por meio de palestras e grupos de discussão, os pais e os familiares das crianças para que discutam com elas a respeito do consumismo e dos males disso. Por fim, o Estado deve regular os conteúdos veiculados nas campanhas publicitárias, para que essas não tentem convencer pessoas que ainda não têm o senso crítico desenvolvido. Além disso, ele deve multar as empresas publicitárias que não respeitarem suas determinações. Com esses atos, a publicidade infantil deixará de ser tão prejudicial e as crianças brasileiras poderão crescer e se desenvolver de forma mais saudável.

Antônio Ivan Araújo, Ceará. http://g1.globo.com/educacao/enem/2015/

Análise

Parágrafo 1: Construção perfeita da Introdução, com o a apresentação do Tema: “A publicidade infantil movimenta bilhões de dólares e é responsável por considerável aumento no número de vendas de produtos e serviços direcionados às crianças.” e a Tese (Ponto de Vista) do produtor textual: “No Brasil, o debate sobre a publicidade infantil representa uma questão que envolve interesses diversos.” E, também, já aparece uma Proposta de Intervenção: “... o governo deve regulamentar a veiculação e o conteúdo de campanhas publicitárias voltadas às crianças...

Parágrafo 2: No Desenvolvimento, o candidato apresenta o primeiro argumento em “... as propagandas voltadas ao público mais jovem podem influir nos hábitos alimentares...”, em forma de Tópico Frasal. Ou seja, o parágrafo está estruturado em três períodos: no primeiro, o produtor textual apresenta o argumento como uma Introdução; no segundo, ele Desenvolve a ideia e, no terceiro, Conclui seu pensamento. Como aspecto negativo, a utilização do conectivo “Em primeiro lugar”, pois, aqui, denota obviedade.

Parágrafo 3: Com outro bom argumento – “... a publicidade infantil é um estímulo ao consumismo desde a mais tenra idade.”, o candidato recorre outra vez ao Tópico Frasal e o mesmo número de períodos. Uma técnica, digamos, meio nariz de cera, como costumam dizer os avaliadores de redações de concursos públicos, ou seja, algo que já vem pré-montado. No entanto, pode passar despercebido se houver uma ótima argumentação, como é o caso desta redação. Empobrecendo o texto, a ausência do acento agudo em “compra-los” e a presença da expressão “Em segundo lugar”. O que foi dito no parágrafo anterior, serve, também, para este conectivo.

Parágrafo 4: Proposta de Intervenção de excelente nível e ao gosto do ENEM: detalhada e contendo os agentes de intervenção: o que, quem e como. Com aspecto negativo, a ausência da vírgula após a palavra “prejudicial”, neste caso, obrigatória, pois separa orações contendo sujeitos diferentes.

Prof. Paulo Jorge