sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018


 

TEMA: Chegando ao terceiro milênio, o homem ainda não conseguiu resolver graves problemas que preocupam a todos.”

Sua primeira providência deve ser copiar este tema em folha de rascunho e fazer a seguinte pergunta: POR QUÊ?

Ao iniciar sua reflexão sobre o tema proposto e sobre uma possível resposta para a questão, procure recordar-se do que já leu ou ouviu a respeito dele. É quase certo que você tenha ao menos uma noção acerca de qualquer tema que lhe vier a ser apresentado.

O ideal, para que sua dissertação explore suficientemente o assunto, é que você obtenha duas ou três “respostas” para a questão formulada; estas “respostas” chamam-se argumentos. Vejamos agora que argumentos poderíamos encontrar para este tema. Uma possibilidade é pensar que um dos sérios problemas que o homem não consegue resolver é o da miséria. Assim, já teríamos o primeiro argumento:

ARG. 1: Existem populações imersas em completa miséria.

Pensando um pouco mais nos problemas que enfrentamos, poderíamos formular o segundo argumento:

ARG. 2: A paz é interrompida frequentemente por conflitos internacionais.
           
Refletindo um pouco mais sobre as questões que afligem a humanidade, logo nos lembramos do desequilíbrio ecológico, que pode ser o nosso terceiro argumento:

ARG. 3: O meio ambiente encontra-se ameaçado por sério desequilíbrio ecológico.

Dessa maneira, obtemos o seguinte quadro:

1) Existem populações imersas em completa miséria.
2) A paz é interrompida frequentemente por conflitos internacionais.
3) O meio ambiente encontra-se ameaçado por sério desequilíbrio ecológico.

Você pode encontrar outros argumentos além desses apresentados acima que justifiquem a afirmação proposta pelo tema. A única exigência é que eles se relacionem com o assunto sobre o qual você está escrevendo.

Uma vez estabelecido o tema e os três argumentos, você já dispõe do necessário para, agora, rascunhar a sua dissertação. Ela deverá constar de três partes fundamentais: Introdução, Desenvolvimento e Conclusão. 

Vamos agora redigir o primeiro parágrafo da dissertação, ou seja, a Introdução. Para compô-la, você deve falar do assunto e manifestar sua opinião a respeito dele. Veja como poderia ser:

No início do terceiro milênio, o homem ainda não conseguiu resolver, ou mesmo minimizar, graves problemas que atingem populações em vários cantos do mundo. É preciso discutir de forma séria e urgente essas questões; pois, se assim não o for, corremos risco de a vida na Terra piorar ainda mais, se é que é possível piorar.
    
Depois de terminado o parágrafo da Introdução, você deverá passar para o Desenvolvimento, explicando cada um dos argumentos já encontrados.

Assim, no próximo parágrafo, escreva tudo o que souber sobre o fato de existirem populações miseráveis.

Embora o planeta disponha de riquezas incalculáveis – estas mal distribuídas quer entre estados, quer entre indivíduos –; encontramos legiões de famintos em pontos específicos da Terra. Nos países do Terceiro Mundo, sobretudo em certas regiões da África, vemos a falência da solidariedade humana e da colaboração entre as nações.

Como você pode perceber, convém, vez por outra, lançar mão de certos exemplos para comprovar suas afirmações.

No parágrafo seguinte, desenvolve-se o seguinte argumento:

Além disso, nestas últimas décadas, temos assistido, com certa preocupação, aos inúmeros conflitos internacionais que se sucedem. Muitos trazem na memória a triste lembrança, por exemplo, das guerras do Vietnã, da Coréia, na antiga Iugoslávia e da Guerra do Golfo. Atualmente, a guerra no Iraque, promovida pelos Estados Unidos, mantém o estado de preocupação de governos, instituições e, por que não dizer, do cidadão comum.

Note a presença da expressão Além disso no início do parágrafo, que estabelece a ligação com o parágrafo anterior. Ela deve ser colocada para evidenciar o fato de que os parágrafos se relacionam entre si.

Trabalhemos agora o terceiro argumento:

Outra preocupação constante é o desequilíbrio ecológico provocado pela ambição desmedida de alguns, que promovem desmatamentos desordenados e poluem as águas dos rios. Tais atitudes contribuem para que o meio ambiente, em virtude de tantas agressões, acabe por se transformar em local inabitável.      

Observe a expressão Outra preocupação constante colocada no início deste parágrafo. Ela é o elemento de ligação com o parágrafo anterior de Desenvolvimento. Estabelece a conexão entre os argumentos apresentados.

Para que sua dissertação fique completa, falta apenas elaborar um último parágrafo que se chama Conclusão. Para isso, reafirme, com outras palavras, sua posição já colocada na Introdução.

Observe:

Somos levados, portanto, a acreditar que o homem está muito longe de solucionar os graves problemas que afligem direta ou indiretamente a todos nós. É imprescindível que algo seja feito no sentido de conter essas forças ameaçadoras, para podermos suportar as adversidades e construir um mundo mais facilmente habitado pelas gerações futuras.

Agora, observe a redação construída, integralmente:

Tempos modernos

        No início do terceiro milênio, o homem ainda não conseguiu resolver, ou mesmo minimizar, graves problemas que atingem populações em vários cantos do mundo. É preciso discutir de forma séria e urgente essas questões; pois, se assim não o for, corremos risco de a vida na Terra piorar ainda mais, se é que é possível piorar.
      Embora o planeta disponha de riquezas incalculáveis – estas mal distribuídas quer entre estados, quer entre indivíduos –; encontramos legiões de famintos em pontos específicos da Terra. Nos países do Terceiro Mundo, sobretudo em certas regiões da África, vemos a falência da solidariedade humana e da colaboração entre as nações.        
    Além disso, nestas últimas décadas, temos assistido, com certa preocupação, aos inúmeros conflitos internacionais que se sucedem. Muitos trazem na memória a triste lembrança, por exemplo, das guerras do Vietnã, da Coreia, na antiga Iugoslávia e da Guerra do Golfo. Atualmente, a guerra no Iraque, promovida pelos Estados Unidos, mantém o estado de preocupação de governos, instituições e, por que não dizer, do cidadão comum.
        Outra preocupação constante é o desequilíbrio ecológico provocado pela ambição desmedida de alguns, que promovem desmatamentos desordenados e poluem as águas dos rios. Tais atitudes contribuem para que o meio ambiente, em virtude de tantas agressões, acabe por se transformar em local inabitável.   
        Somos levados, portanto, a acreditar que o homem está muito longe de solucionar os graves problemas que afligem direta ou indiretamente a todos nós. É imprescindível que algo seja feito no sentido de conter essas forças ameaçadoras, para podermos suportar as adversidades e construir um mundo mais facilmente habitado pelas gerações futuras.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018



O texto, a seguir, é de autoria de uma das escritoras referenciais na literatura brasileira. Clarice Lispector. Nele, ao mesmo tempo em que declara seu amor à Língua Portuguesa, Clarice nos dá uma aula beleza e refinamento textual.

Ótima Leitura!
Declaração de amor

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Editora Rocco, 1984