sábado, 26 de julho de 2014

Análise das Melhores Redações / ENEM 2009


O ENEM 2009 propôs ao candidato dissertar sobre o tema "O indivíduo frente à ética nacional", em, aproximadamente, trinta linhas, levando em consideração uma charge de Millôr Fernandes (Disponível em: http://www2.uol.com.br/millor. Acesso em 16 de setembro de 2013, às 13h10), um texto de Lya Luft, retirado da revista Veja, e outro de Contardo Calligares, publicado no site http://www1.folha.uol.com.br, ambos refletindo sobre indignação e corrupção.

 
Veja, a seguir, uma redação que obteve uma excelente pontuação, neste exame:

Lágrimas de crocodilo

O Brasil tem enfrentado, com frequência, problemas sérios e até constrangedores, como os elevados índices de violência, pobreza e corrupção – três mazelas fundamentais que servem para ilustrar uma lista bem mais longa. Porém, mesmo diante dessa triste realidade, boa parte dos brasileiros parece não se constranger – e, talvez, nem se incomodar –, preferindo fingir que nada está ocorrendo. Em um cenário marcado pela passividade, é preciso que a sociedade se posicione frente à ética nacional, de forma a honrar seus direitos e valores humanos e, assim, evitar o pior.

Na época da ditadura militar, grande parte da população vivia inconformada com a atuação de um governo opressor, afinal, com as restrições à liberdade de expressão, não era possível emitir opiniões sem medir os riscos de violentas repressões. Apesar de uma conjuntura tão desfavorável para manifestações, muitos foram os movimentos populares em busca de mudanças, mesmo com as limitações na atuação da mídia. Talvez a sensação de um Brasil melhor hoje ajude a explicar a inércia da sociedade diante da atual crise de valores na política e em todas as camadas da população.

Muitos não percebem, mas esse panorama cria um paradoxo perverso: depois de tanto sangue derramado pelo direto de expressar opiniões e participar das decisões políticas, o indivíduo se cala diante da crise moral contemporânea. Nesse contexto, protestos se transformam em lamúrias, lamentações em voz baixa, que ninguém ouve – e talvez nem queira ouvir. Ou então em piadas, “ótimo” recurso cultural para sorrir e se alienar frente à falta de uma postura virtuosa. Assim, apesar de viver em um país democrático, o brasileiro guarda seus direitos – e os dos outros – no bolso da calça, pelo menos quando tem uma para vestir.

Para que o indivíduo não se dispa de sua cidadania, é preciso honrar o sistema democrático do país. Nesse contexto, o povo deve ir às ruas, de modo pacífico, para exigir uma mudança de postura do poder público. Além disso, a mobilização deve agir na direção de quem mais necessita, ajudando, educando e oferecendo oportunidades para excluídos, que vivem à margem da vida social, abaixo da linha da humanidade. Para tudo isso, entretanto, é preciso uma mudança prévia de mentalidade, uma retomada de valores humanos esquecidos, que só será possível com a ajuda da família, das escolas e até mesmo da mídia.

Por tudo isso, fica claro que o brasileiro deve parar de negar e de rir do evidente problema ético que enfrenta. Trata-se de questões sérias, cujas soluções são difíceis e demoradas, mas não impossíveis. Se a sociedade não se mobilizar imediatamente, chegará o dia em que as piadas alienadas e alienantes resultarão, para a maioria, em risadas de hiena. E, para a minoria privilegiada, imune – ou beneficiada? – à crise ética, restarão apenas olhos marejados.


Análise da Redação

Parágrafo 1: Tópico frasal construído com muita competência. Observe que os três períodos apresentam uma Introdução, um Desenvolvimento e uma Conclusão, nos quais são apresentados o Tema da redação – "O indivíduo frente à ética nacional" – e a Tese do autor sobre o tema “... é preciso que a sociedade se posicione frente à ética nacional, de forma a honrar seus direitos e valores humanos e, assim, evitar o pior.”

Parágrafo 2: Começa o produtor textual a relacionar seus argumentos que irão embasar sua Tese. E começando muito bem, pois busca em seu repertório cultural uma informação histórica que enaltece o comportamento do brasileiro no período ditatorial no País, emitindo uma comparação com os tempos atuais.

Parágrafo 3: Aqui, o candidato amplia sua reflexão sobre o comportamento do brasileiro, apontando sua estranheza sobre a acomodação da sociedade brasileira, numa época em que vivemos uma democracia plena.

Parágrafo 4: No último parágrafo do Desenvolvimento, o produtor textual sugere qual deve ser o comportamento político do brasileiro, além de já apresentar sua visão humanista – fundamental na redação do ENEM! –, sobre o problema, ao citar que “... a mobilização deve agir na direção de quem mais necessita, ajudando, educando e oferecendo oportunidades para excluídos, que vivem à margem da vida social, abaixo da linha da humanidade.”

Parágrafo 5: Na Conclusão, outro exemplo de um perfeito Tópico Frasal apresentando sua Proposta de intervenção "Se a sociedade não se mobilizar imediatamente, chegará o dia em que as piadas alienadas e alienantes resultarão, para a maioria, em risadas de hiena." e um período finalizador construído com refinamento textual: “E, para a minoria privilegiada, imune – ou beneficiada? – à crise ética, restarão apenas olhos marejados.”

Acrescente-se o uso correto da variante padrão da Língua Portuguesa e, também, a precisão na construção da Coerência e da Coesão textuais.

Realmente, um texto merecedor de alta pontuação, haja vista que o ENEM exige dos candidatos competências relativas aos conteúdos disciplinares do Ensino Médio. É bom não esquecer!

Abraços,

Paulo Jorge

sábado, 19 de julho de 2014

Análise das Melhores Redações / ENEM 2008


Com a aproximação das datas de realização das provas do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio 2014, a partir desta semana e nas próximas três, vamos postar e analisar as melhores redações dos cinco últimos concursos desse concurso, a fim de refletirmos sobre as competências que compõem arquitetura textual do texto dissertativo-argumentativo e são cobradas no exame, aliás, essenciais, também, para outros exames e concursos.

O ENEM de 2008 pediu uma resposta para o seguinte enunciado: “Como preservar a floresta Amazônica”. Foram sugeridas três possibilidades:

1) suspender imediatamente o desmatamento;
2) dar incentivos financeiros a proprietários que deixarem de desmatar;
3) ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar.

Inicialmente, vejamos uma redação sobre o tema que alcançou uma ótima pontuação:


(Sem título)

A floresta Amazônica vem sofrendo há muito tempo com o desmatamento, problema que compromete a realização natural do ciclo da água, prejudicando, assim, o funcionamento pleno deste bioma. Desse modo, é necessário preservar tal ambiente; e uma das maneiras de fazê-lo é a efetivação de pagamentos a proprietários de terra a fim de que parem de desmatar a floresta. Contudo, não se deve executar apenas esta ação.

O cumprimento de tal atitude pode, sim, diminuir o índice de desmatamento da Amazônia, já que os proprietários de terra podem utilizar este pagamento para suas necessidades ao invés do lucro que eles ganhariam se estivessem explorando os recursos naturais de forma exorbitante, o que significa que, pelo menos teoricamente, o padrão de vida desses indivíduos não seria alterado.

Por outro lado, há uma enorme probabilidade de que, mesmo recebendo dinheiro, alguns proprietários de terra continuem devastando a floresta para enriquecerem mais rapidamente, o que, com certeza, é uma evidência concreta da sociedade capitalista e ambiciosa contemporânea. Afinal, isto mostra que certas pessoas se preocupam apenas consigo mesmas, sem se importarem com o meio ambiente.

Além disso, devido à extensão territorial do Brasil, a verba enviada aos latifundiários da Amazônia pode não chegar a essa região, fazendo com que eles permaneçam desmatando-a. Outro motivo relevante para a ocorrência de tal evento é o fato de, infelizmente, existirem muitos corruptos neste país, os quais roubam parte do dinheiro.

Diante da problemática em questão, é indispensável que os ambientalistas promovam manifestações pacíficas que tenham como objetivo a conscientização dos adultos e do governo para que ambos compreendam que é necessária a preservação ambiental, pois só assim as gerações futuras terão meios de extrair da natureza o que é essencial para a sobrevivência.

Análise da Redação

Parágrafo 1: O produtor textual atendeu plenamente à proposta de redação, pois escolheu a segunda alternativa, ou seja, defendeu a ideia de “… dar incentivos financeiros a proprietários que deixarem de desmatar;” e colocou no parágrafo inicial do texto. Ao mesmo tempo em que defende sua tese em relação a sua escolha: “Desse modo, é necessário preservar tal ambiente; e uma das maneiras de fazê-lo é a efetivação de pagamentos a proprietários de terra a fim de que parem de desmatar a floresta.” Construção perfeita da Introdução.

Parágrafo 2: Para defender sua tese, o candidato apresenta seu primeiro e bom  argumento “… já que os proprietários de terra podem utilizar este pagamento para suas necessidades ao invés do lucro que eles ganhariam se estivessem explorando os recursos naturais de forma exorbitante…” com um Tópico Frasal constituído de Introdução, Desenvolvimento e Conclusão – nessa ordem, o que demonstra competência na progressão frasal.

Parágrafo 3: Aqui, o candidato faz uma contra-argumentação correta ao argumento citado: “Por outro lado, há uma enorme probabilidade de que, mesmo recebendo dinheiro, alguns proprietários de terra continuem devastando a floresta para enriquecerem mais rapidamente…”

Parágrafo 4: Neste parágrafo, o candidato falha, pois apresenta mais duas contra-argumentações o que prejudica a defesa de sua tese. Defender um ponto de vista apresentando apenas um argumento e três contra-argumentações é demonstrar inconsistência argumentativa.

Parágrafo 5: Chama à atenção negativamente, o fato de o candidato citar “manifestações pacíficas” em sua proposta de intervenção, uma vez que não houve referência a elas ao longo do texto.

Sem dúvida uma redação acima da média, com correção no uso da variante padrão da língua e coesão perfeitas, embora um pouco fragilizada pela engenharia argumentativa.

Abraços,

Paulo Jorge

Um Professor de Ética





















A memória já não era a mesma, não se lembrava, mas seus alunos garantiam. Ele – o garoto – era seu aluno há três anos e, ali mesmo, no ICEIA. Aliás, esse era o motivo – acreditava o velho mestre – para se sentir intensamente feliz em realizar aulas nas quatro turmas do matutino, do Ensino Médio, no igualmente velho bairro do Barbalho. Três anos seguidos trabalhando com os mesmos alunos deve ser o desejo de todo professor. Em um 2012 marcado por dias tão atribulados, mais que labuta, eram momentos plenos de conhecimento, alegria e afeto.


Ao longo do ano letivo, ele – o garoto – se acostumou a sentar-se no centro da turma, alternando de companhia o que revelava sua inclinação para, constantemente, ampliando a interação, ampliar seu círculo de amigos.

Nos momentos de leitura de textos, ele – o garoto – exibia seus olhos atentos, ávidos para beber novos conhecimentos. Parecia ao professor – não tinha certeza disso – que o aluno tinha uma predisposição para marcar sua presença no ambiente, haja vista que, em todas as aulas, o rapaz levantava a mão como a exigir um justo direito.

Faziam os alunos a última avaliação de um ano letivo magnífico para o professor. Momentos e alunos para serem guardados na memória e ficarem impregnados na alma.

De repente, ele – o garoto – faz uma pergunta sobre o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Desatento, o professor responde “sim” ao aluno.

Relembrava o mestre. A última vez em que houve uma empatia tão forte entre ele e seus alunos ocorreu no longínquo 1995, ano em que começou a lecionar. Uma Feira das Nações inesquecível selou uma relação de respeito e reconhecimento que atravessa os tempos.

Último dia do ano letivo, entrega de resultados e uma surpresa. Ele – o garoto – estava furioso:

– Professor, o senhor me disse que eu poderia utilizar a Ortografia Oficial vigente. O mestre ficou na berlinda. Não sabia o que fazer. Ou sabia e não tinha coragem de fazer. Melhor dizer ao aluno que o enunciado estava claro. Era uma saída possível. Fez isso.

– Mas eu perguntei ao senhor, e o senhor me disse que sim. Um golpe certeiro atingiu o mestre. Mas este ainda não se deu por vencido.

O senhor fala tanto em justiça, e agora? O senhor está errado, professor. Errado. A palavra ecoava em sua mente. Um nocaute implacável. Do embate, ele – o garoto – saiu-se vencedor.

Um filme passa na mente do mestre. Formando alunos e professores, prestes a completar vinte anos na Educação, nunca lhe tinha ocorrido algo semelhante. Um garoto, aos 18 anos de idade, lhe dá uma aula de conduta. E de ética.

Victor Lima Marques: um Professor de Ética!

Abraços,

Paulo Jorge

PS: Na noite do mesmo dia, o professor entra em contato com o aluno e lhe pede para ir à escola no dia seguinte para refazer a avaliação. E assim foi feito.