sábado, 17 de janeiro de 2015

                                                Um verso imortal!

Luiz Costa Pereira Junior, editor da revista Língua Portuguesa, conta, na edição de dezembro do ano que findou, a origem do texto Lacraia, de Manoel de Barros. Veja:

Em 2005, pedi a Manoel que me enviasse um texto sobre a sua relação com a palavra. Recusou-se a remeter o escrito via internet, que não era homem de lidar com essas coisas. Mandou, pelo correio mesmo, uma folha de papel almaço, ordenadamente datilografada e assinada, coberta pela tinta gasta da máquina, seus repuxos e saltitos de letra, o estilo refinado pela crueza de menino do mato.

Na capa da revista, há uma chamada: “Manoel de Barros Em texto exclusivo, poeta conta como criou um verso imortal.

Ótima Leitura!
Lacraia

Um trem de ferro com vinte vagões quando descarrila, ele sozinho não se recompõe. A cabeça do trem ou seja a máquina, sendo de ferro não age. Ela fica no lugar. Porque a máquina é uma geringonça fabricada pelo homem. E não tem ser. Não tem destinação de Deus. Ela não tem alma. É máquina. Mas isso não acontece com a lacraia. Eu tive na infância uma experiência que comprova o que falo. Em criança a lacraia sempre me pareceu um trem. A lacraia parece que puxava vagões. E todos os vagões da lacraia se mexiam como os vagões do trem. E ondulavam e faziam curvas como os vagões do trem. Um dia a gente teve a má ideia de descarrilar a lacraia. E fizemos essa malvadeza. Essa peraltagem. Cortamos todos os gomos da lacraia e os deixamos no terreiro. Os gomos separados como os vagões da máquina. E os gomos da lacraia começaram a se mexer. O que é a natureza! Eu não estava preparado pra assistir aquela coisa estranha. Os gomos da lacraia começaram a se mexer e se encostar um no outro para se emendarem. A gente, nós , os meninos, não estávamos preparados para assistir aquela coisa estranha. Pois a lacraia estava se recompondo. Um gomo da lacraia procurava o seu parceiro parece que pelo cheiro. A gente como que reconhecia a força de Deus. A cabeça da lacraia estava na frente e esperava os outros vagões se emendarem. Depois, bem mais tarde eu escrevi este verso: Com pedaços de mim eu monto um ser atônito. Agora me indago se esse verso não veio da peraltagem do menino. Agora quem está atônito sou eu.

Manoel de Barros
Abraços Fraternos!

Paulo Jorge