sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O leitor rirá por último


Por que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Nas placas que enfeiam, ainda mais, a linda cidade da Baía, destacam-se os dentes. Alvos, quase exuberantes, riem sobre a urbe destroçada. Riem de quê? Do lixo, dos buracos, do fedor de mijo que afligem os cidadãos do território sem cidadania? Do extermínio da produção artística criativa dos Anos 1990? Da inexistência de políticas públicas municipais para o que quer que seja?

Do tráfico e da polícia que, concorrentes, matam, como nunca antes na história deste Estado, jovens das periferias? Do mensalão do PT? Da CPI de Cachoeira do PSDB? Ou do poder onipresente de Sarney, o corrupto mor do País, na frágil democracia de 1963, em toda a ditadura, de 1964 a 1989, e na democracia de agora? Riem do constrangimento e da vergonha de serem políticos, como Maluf, os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos?

De que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Dos analfabetos absolutos ou funcionais que vitimizam a si mesmos, à cidade, aos municípios, e ao Estado? Da educação pública, da saúde pública, da péssima qualidade dos serviços públicos, ou das casas caras que ocuparam para fazer campanha, e das casas ainda mais caras que ocuparão depois, se vencerem, aumentando patrimônios a galope, sem que ninguém lhes impeça ou fiscalize? Riem dos salários que os três Poderes se autocontemplaram, às escondidas, e que a Lei de Acesso tem exposto?

De que tanto riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Da falta de novas lideranças políticas? Das promessas que, quase todos fizeram sem falta e, as quais, quase todos faltaram, sem dúvidas? Da grana que precisa ser investida no Centro Histórico, pós avacalhação 2007.2010? Riem da gestão de Joãozinho Oito que se encerra com a cidade mais provinciana que em 2004? Riem de não terem rejeitado suas contas, tolerando que se ele se candidate a governador em 2014? Que tanto têm para rir os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitano à gestão 2013.2016. Como quem ri por último ri melhor, temos a opção da não reeleição absoluta.

Aninha Franco. Jornal A Tarde, em 26 de agosto de 2012.
Acesso em: 31 de agosto de 2012, às 12h49.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O QUE MUDA COM O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO

Fonte: professor Sérgio Nogueira www.g1.globo.com


Alfabeto: ganha três letras
Antes: 23 letras
Depois: 26 letras: entram k, w e y.



Trema: desaparece em todas as palavras.
Antes: freqüente, lingüiça, agüentar.
Depois: frequente, linguiça, agüentar.

Obs.: Fica o acento em nomes como Müller.


Acentuação 1: some o acento dos ditongos abertos éi e ói das palavras paroxítonas.
Antes: européia, idéia, heróico, apóio, bóia, asteróide, estréia, jóia, platéia, paranóia, jibóia, assembléia.
Depois: europeia, ideia, heroico, apoio, boia, asteroide, estreia, joia, plateia, paranoia, jiboia, assembléia.

Obs.: As palavras oxítonas mantêm o acento circunflexo: “herói, papéis, troféus” etc.


Acentuação 2: some o acento em i e em u fortes depois de ditongos em palavras paroxítonas.
Antes: baiúca, bocaiúva, feiúra.
Depois: baiuca, bocaiuva, feiúra.

Obs.: Se “i” e “u” estiverem na última sílaba, o acento continua como em Piauí.


Acentuação 3: some o acento circunflexo das palavras terminadas em êem e ôo (ou ôos).
Antes: crêem, dêem, lêem, vêem, prevêem, vôo, enjôos.
Depois: creem, deem, leem, veem, preveem, voo, enjoos.



Acentuação 4: some o acento diferencial.
Antes: pára, péla, pêlo, pólo, pêra, côa.
Depois: para, pela, pelo, polo, pera, coa.

Obs.: Não some o acento diferencial em “pôr” (verbo) / "por" (preposição) e “pôde” (pretérito) / "pode" (presente). "Fôrma", para diferenciar de "forma", pode receber acento circunflexo.


Acentuação 5: some o acento agudo no u forte nos grupos gue, gui, que, qui de verbos como averiguar, apaziguar, arguir, redarguir, enxaguar.
Antes: averigúe, apazigúe, argúi, enxagúe.
Depois: averigue, apazigue, argui, enxague.




ATENÇÃO
As demais regras de acentuação permanecem as mesmas.




Hífen

 Veja como ficam as principais regras do hífen com prefixos:

Agro, ante, anti, arqui, auto, contra, extra, infra, intra, macro, mega, micro, maxi, mini, semi, sobre, supra, tele, ultra:

Quando a palavra seguinte começa com h ou com vogal igual à última do prefixo:
Ex. auto-hipnose, auto-observação, anti-herói, anti-imperalista, micro-ondas, mini-hotel.

Em todos os demais casos:
Ex. autorretrato, autossustentável, autoanálise, autocontrole, antirracista, antissocial, antivírus, minidicionário, minissaia, minirreforma, ultrassom.

Hiper, inter, super:
Quando a palavra seguinte começa com h ou com r:
Ex. super-homem, inter-regional.

Em todos os demais casos:
Ex. hiperinflação, supersônico.

Sub:
Quando a palavra seguinte começa com b, h ou r:
Ex. sub-base, sub-reino, sub-humano.

Em todos os demais casos:
Ex. subsecretário, subeditor.

Vice:
Sempre: vice-rei, vice-presidente

Pan, circum:
Quando a palavra seguinte começa com h, m, n ou vogais:
Ex. pan-americano, circum-hospitalar.

Em todos os demais casos:
Ex. pansexual, circuncisão.



domingo, 26 de agosto de 2012

A MAIS PERFEITA TRADUÇÃO

Brasil perrengue
Aninha Franco


As pesquisas detectam um brasileiro mais atento. Um humano que assiste às sessões monótonas do "julgamento do século", como quer a imprensa sobre o mensalão, que está desencantado com a política, que duvida do continuamente prometido Brasil melhor, mas que compartilha politicamente para obtê-lo. Humano que, entre a CPI de Cachoeira e o "julgamento do século", expõe e discute as mazelas.br  pós-colonizações e ditadura nas redes sociais, e busca identidade.

Fala-se quase tanto de política no Brasil, hoje, como antes do Golpe de 1964, autor das sequelas culturais e distorções intelectuais contemporâneas. Às vezes passo, leio, ouço e sinto uma rua, um jornal, uma cidade dos USA. Mas estou no Brasil, na Bahia, em São Paulo, lendo em brasileiro. E as cidades do Cariri, de construção armorial, me aliviam. As regulares medalhas brasileiras nas Olimpíadas levaram um cartola a clamar pela meritocracia. Sempre uma boa ideia. Dilma Rousseff, depois de ouvir empresários e políticos, propõe um Brasil eficiente em seis ações. Que venha. Ninguém aguenta mais esse Brasil perrengue.

As eleições cheiram mal. Impera o espírito geral e irrestrito da desconfiança e do saco cheio à mentira generalizada, à corrupção e à convivência (harmoniosa?) da miséria com a opulência. Num Brasil eficiente, os serviços públicos funcionariam, os gestores respeitariam o erário, e os cidadãos pagariam impostos para receber benefícios. Que conste, isso não acontece desde 1549. Não importando a água que passou sob a ponte. A Lei do Acesso expõe, todos os dias, com a astúcia da serpente, os benefícios que os três poderes se autodestinaram com o poder nas mãos.

Os benefícios do Judiciário, aquele que deveria julgar, tão desavergonhados quanto os benefícios do Legislativo, aquele que deveria legislar. Praticamente sozinha, a honestidade da ministra Carmem Lúcia é motivo de admiração. Ela não usa isso e aquilo. Comentam. Ela dispensou o carro oficial e usou um táxi. Registram. É como se a imprensa ignorasse que a ministra está certa. E se assombre com a solidão do seu acerto.

Acesso em: 26 de agosto de 2012, às 14h25

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O que é e para que serve a norma culta

Uma grande amiga me perguntou por e-mail o que é norma culta. Ela, que é jornalista, precisa dominar a tal norma para trabalhar. Mas, e quem não trabalha com as palavras, também precisa dominá-la? Devemos seguir as regras da gramática normativa em todas as situações ou só nas formais? Devemos corrigir quem fala "errado" ou ser condescendentes? Essa inquietação não é só de minha amiga: muitas pessoas (se) fazem as mesmas perguntas. Afinal, numa sociedade como a nossa, em que quase tudo é motivo de exclusão, o modo como se fala é um dos maiores alvos do preconceito e da intolerância.

Ia responder à minha amiga também por e-mail, só que a resposta a essas indagações é tão complexa - a menos que, à maneira de muitos gramáticos, eu desse respostas dogmáticas do tipo "isso é assim porque é assim e pronto" - que a mensagem eletrônica se transformou neste artigo que convido minha amiga a ler.

Em primeiro lugar, a língua que falamos, seja qual for (português, inglês, coreano...), não é uma, são várias. Tanto que um dos mais eminentes gramáticos brasileiros, Evanildo Bechara, disse a respeito: "Todos temos de ser poliglotas em nossa própria língua". Qualquer um sabe que não deve falar em uma reunião de trabalho como falaria numa mesa de bar. Ou seja, a língua varia. E o faz em função de quatro parâmetros básicos. Varia no tempo (daí o português medieval, renascentista, do século 19, dos anos 40, de hoje em dia), varia no espaço (por isso temos um português lusitano, brasileiro, e mais, um português carioca, paulista, sulista, nordestino), varia segundo a escolaridade do falante (resultando em duas variedades de língua: a escolarizada e a não escolarizada) e finalmente varia segundo a situação de comunicação, isto é, o local em que nos encontramos, a pessoa com quem falamos e o motivo da nossa comunicação - e, nesse caso, há duas variedades de fala: formal e informal.

Tenho dito sempre que a língua é como a roupa que vestimos: há um traje para cada ocasião. Há situações em que se deve usar traje social, outras em que o mais adequado é uma roupa casual, sem falar nas situações em que se usa pijama, maiô ou mesmo nada (para tomar banho esse é o traje ideal). Trata-se de normas indumentárias, pois pressupõem um uso "normal". Não é proibido ir à praia de terno, mas não é normal, é um desvio que causa estranheza.

A língua funciona do mesmo modo: há uma norma para entrevistas de emprego, audiências judiciais, textos técnicos; há outra para fazer compras no supermercado, bater papo, falar com a empregada. Portanto, a norma culta é o padrão de linguagem que se deve usar em situações formais. Do ponto de vista temporal, ela tende a ser conservadora, refletindo um padrão que recobre pelo menos o último século; em termos geográficos, corresponde ao linguajar dos grandes centros (no caso brasileiro, especialmente os do Sudeste). Em termos sociais, culturais e situacionais, é a norma das classes mais altas e mais escolarizadas, nas situações de relacionamento em que deve haver distanciamento respeitoso entre os interlocutores.

Portanto, assim como há lugares onde se deve usar terno e outros em que o melhor é calça jeans e tênis, todos dizemos "tô, tá" em vez de "estou, está", "a gente" em lugar de "nós", "sentar" em vez de "sentar-se", "na minha casa" por "em minha casa", e assim por diante, nas situações informais (e hoje em dia até em algumas formais). Não empregar o padrão culto nesses casos não é erro, é bom senso. Errado é falar como as pessoas incultas ("nós foi, a gente somos, teje, menas"). Só que ninguém escolarizado fala assim, a não ser de brincadeira. E quem fala assim não o faz porque quer, mas porque não teve a chance de aprender "as várias línguas dentro da língua". Ou seja, está condenado a ser monoglota. Enquanto nós temos no guarda-roupa opções de trajes para todas as ocasiões, o indivíduo não escolarizado é como um indigente que vai maltrapilho a todos os lugares.

A questão é: devemos usar a norma culta em todas as situações? Evidentemente que não, sob pena de soarmos pedantes. Dizer "nós fôramos" em vez de "a gente tinha ido" numa conversa de botequim é como ir de terno à praia. Mas saudar com um "E aí, tudo beleza?" o entrevistador a quem fomos pleitear um emprego é como ir trabalhar de pijama.

E quanto a corrigir quem fala errado? É claro que os pais devem ensinar seus filhos a se expressar corretamente, assim como é dever do professor corrigir o aluno, mas será que tenho o direito de advertir o balconista que me cobra "dois real" pelo cafezinho? Ao fazê-lo, não estaria humilhando essa pessoa, ainda que com a melhor das intenções? Mais ainda, não estaria sendo ofensivo, insolente, intrometido? Não estaria fazendo à toa um inimigo? É justo criticar a camiseta puída do catador de sucata sabendo que ele não tem condições de comprar uma nova? Espero que essas ponderações ajudem a esclarecer as dúvidas de minha amiga. 
E dos demais leitores.
 
Aldo Bizzocchi
Acesso em: 21 de agosto de 2012.

sábado, 18 de agosto de 2012

Chico, a voz
Aninha Franco  

Gurgel tinha 14 anos quando Castelo Branco morreu (7.1967), estranhamente, e 15 quando o AI-5 (12.1968) avisou aos civis desconfortáveis com a ditadura que os militares continuariam no poder. Os civis aliados estavam no poder. Sarney era governador do Maranhão. A voz da resistência chamava-se Chico Buarque. A ele, o dono da voz, todos ouviam, tanto Gurgel quanto os militantes mal armados José Dirceu, José Genoíno e Dilma Rousseff. Mal amados, também. A sociedade não lhes amou.

Nós, os jovens desconfortáveis, sim. Mas a voz ouvida era de Chico. Quando Chico prometia "amanhã será outro dia", nós acreditávamos. Quando Chico cantava "você não gosta de mim, mas sua filha gosta" para Lucy Geisel, nós ríamos. Quando Chico compunha um disco inteiro e assinava Julinho de Adelaide, enrolava a censura, e dizia, livremente, para chamar o ladrão, porque a polícia era punk, nós nos embolávamos de rir. Quando censuravam suas palavras, nós as assobiávamos.

Nós respeitávamos Marighela, mas era impossível ouvi-lo. Ele não interagia com a ditadura. Era seu inimigo público número-um. Brigava com ela a briga mortal. E a venceu. José Dirceu era bonito no caminhão de Ibiúna onde Maria Sampaio também foi presa. Vejam a foto histórica da Veja comandada por Mino Carta. E riam. Os meninos mal armados foram mais amados, por nós, quando sequestraram embaixadores e aviões. Era um jogo político mais honesto que o de agora. O sequestro do embaixador dos USA e a libertação dos presos, inclusive Dirceu, foi uma festa de corações aos pulos.

Dilma Rousseff ficou. Foi torturada na prisão. Não mudou a cara. Cumpriu pena. E voltou à vida democrática. Cumpriu todas as etapas sem trapaças e chegou ao lugar que José Dirceu almejou desde a foto da prisão, em Ibiúna. Dirceu já foi condenado. Perdeu o Brasil e está assistindo Chico Buarque, o líder da resistência, em campanha para o PSOL no Rio de Janeiro. Assistiu, também, Gurgel, não por acaso, citar Chico na peça de acusação que lhe fez, por corrupção. Não há charme na corrupção. Nem argumentos que lhe expliquem. Corruptos são abjetos. Ele devia brigar pela prisão. Talvez ela lhe salve da desgraça histórica desse jogo irresponsável (e interminável) pelo poder.

domingo, 12 de agosto de 2012

O TESTE DO SOFÁ E O GAROTO DE MALUF

Poucas imagens do jornalismo causaram tanto alvoroço e repercussão nos últimos tempos quanto as fotografias e cenas exibindo em multiplicidades de poses o ex-presidente Lula, seu candidato à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, e o nome mais associado à corrupção no Brasil nas últimas quatro décadas: Paulo Maluf. A cena soava pornográfica até mesmo para quem acredita mais em duende que em coerência política. Lula e Maluf felizes e sorridentes, tendo ao meio um Haddad aparentemente constrangido de riso amarelado. Os três abraçados, nos jardins imperiais da mansão de Maluf, para onde o anfitrião os atraiu sob o álibi de selar e anunciar seu apoio eleitoral à chapa petista. Ofereceu uma feijoada e fez questão de encerrá-la na área verde externa do seu bunker malufista, sob o olhar de fotógrafos e cinegrafistas convocados para imortalizar o tão inusitado encontro na memória política do país. 

TESTE DO SOFÁ – Pragmático e sempre ancorado nos argumentos do cinismo que são peculiares à média da classe política brasileira, Maluf deu a tônica da essência das coisas quando perguntado sobre onde teriam ido parar os resquícios ideológicos partidários que separavam esquerda e direita. Segundo anunciou-se no jornalismo político, a sua resposta teria sido algo do tipo: já não existe nem direita, nem esquerda. O que existe são segundos na TV. Ou seja, os abraços, os tapinhas, a feijoada com direito a cenas públicas de afagos nos jardins impostos a (e imediatamente aceitos por) Lula em troca do apoio de Maluf à candidatura de Haddad seriam uma versão eleitoral do teste do sofá.

Há quem diga que, ao longo da história da televisão brasileira (quiçá do mundo, quiçá do cinema internacional), muitas mulheres lindas, com ou sem talento, precisaram submeter-se ao famoso teste do sofá, oferecendo seus encantos a algum diretor ou chairman poderoso das emissoras para, assim, obter oportunidade e espaço na telinha. Pois bem, esta campanha eleitoral que se aproxima será uma campanha antecedida e marcada pelo ‘teste do sofá’, onde alhos e bugalhos estão se misturando sem qualquer pudor desde que sentar no sofá do ex-opositor signifique uns segundinhos a mais no horário eleitoral gratuito.

CINISMO - Foi isso que Lula foi fazer com Haddad na mansão de Maluf: o teste do sofá. Em troca dos preciosos tempinhos do partido de Maluf na TV no horário eleitoral gratuito. Do mesmo modo, por aqui, na Bahia, o DEM também apelou para a mesma estratégia assediando o Partido Verde e uma militante dos movimentos sociais da periferia e do movimento negro. Se um dia o DEM de ACM Neto já contestou juridicamente as cotas raciais na universidade e agora tem como vice Célia Sacramento, uma árdua defensora das cotas, os antagonismos entre ambos, como diria Maluf, não mais importam. O que importa são os preciosos segundos na TV que o casamento político do DEM com o PV proporciona à campanha eleitoral.

E na onda do teste, o cinismo se espraia sem qualquer resquício de pudor. O próprio ex-presidente Lula, ao posar com a presidente Dilma durante a Rio+20, dois dias após posar com Maluf e um dia após a ressaca política de ver a vice do seu candidato, a ex-prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, recuar da chapa alegando repulsa às imagens da véspera, saiu-se com um trocadilho infame. Referiu-se à foto com Dilma como sendo ambientalmente correta, numa oposição à politicamente incorreta, literal, com Maluf. No mesmo evento, o governador da Bahia, Jaques Wagner, também se sentindo confortável no posto de piadista experimental disse que em tempos de Rio+20 era preciso ver a aliança com Maluf num contexto em que sustentabilidade pressupõe não exterminar qualquer espécie [política]. Muito engraçado, governador. Além disso, para Wagner, para vencer as eleições em São Paulo vale o esforço de aliar-se a Maluf.   

‘MEU GAROTO’! - Entre o teste do sofá visando a campanha eleitoral na TV, que logo entrará nos lares brasileiros assustando o telespectador que tiver estômago para assisti-lo, e as imagens de Lula no bunker malufista, a cena mais tradutora da canastrice bufa do encontro talvez seja a de Paulo Maluf passando a mão nos cabelos recém-cortadinhos de Haddad. Vista na TV e nos jornais a imagem parecia pedir desesperadamente uma legenda. Poderiam ter tomado-a emprestada do bordão de um dos personagens antológicos de Chico Anísio. Quem não lembra da dupla de palhaços Cascata (Chico) e Cascatinha (Castrinho), cujo bordão era: ‘meu pai-pai!; meu garoto!’? À luz da imagem, Maluf transformou Haddad no garoto de Maluf.

Malu Fontes é jornalista, doutora professora da Facom-UFBA.
Texto publicado em 24 de junho de 2012, no jornal A Tarde.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Embora este texto tenha sido escrito há pouco mais de dois  meses, é postado  aqui, porque a reflexão da professora e doutora da UFBA, Malu Fontes, representa um exercício de independência e uma aula de argumentação.


Doze dias de greve dos policiais na Bahia foram capazes de revolver diversos segmentos da sociedade baiana, não apenas na negociação diária em busca de saídas para o impasse entre grevistas e o governo do estado, mas, sobretudo no debate irado que se travou nos meios de comunicação em torno do argumento do desamparo ao qual a população estava submetida e dos prejuízos gerados à economia pela redução da circulação de pessoas no comércio.

Os telejornais locais e os nacionais deram ampla cobertura ao fato e o barulho social gerado pela paralisação tinha força de um urro, ora acusando o governador de omisso e irresponsável por não negociar com os policiais, ora acusando os policiais de bandidos, irresponsáveis e até de contribuírem diretamente para o aumento do número de homicídios. Em outras palavras, parte da imprensa disse com muito prazer que uma certa polícia miliciana andou executando gente durante a greve a torto e a direito.

METRÔ – Há pouco mais de uma semana a maior cidade do País, São Paulo, acordou com os metroviários de braços cruzados e mesmo quem vive no Amapá foi bombardeado o dia inteiro por imagens televisivas de todas as emissoras mostrando do alto a cidade caótica, cena, aliás, que nem precisa de paralisação de metrô para ser capturada por câmeras de TV, em se tratando de São Paulo. A greve não durou um dia. O poder político e o poder econômico, diante do prejuízo que se desenhou, arranjaram uma solução urgente e 24 horas depois tudo estava resolvido, com conquistas para os metroviários.

Em Salvador, que nunca pôde contar com o luxo de ter um metrô, no mesmo dia quem cruzou os braços foram os motoristas e cobradores de ônibus, deixando cerca de um milhão de pessoas sem transporte e reduzindo radicalmente a circulação de dinheiro no comércio. Como quem anda de ônibus em Salvador está em muita desvantagem social e econômica em relação a quem anda de metrô em São Paulo, a coisa demorou um pouquinho mais que lá para se resolver, mas a greve não se estendeu nem até o fim de semana.

RENITENTE - Enquanto isso, na Bahia, numa outra dimensão da vida, para um grupo de pessoas que de certo modo carregam nas costas a única idéia de futuro que este país pode ter, os professores, uma greve se arrasta caminhando para dois meses, 60 dias, e a impressão que se tem na capital, em Salvador, é que nada está acontecendo, que nada está fora do lugar ou da ordem. Milhares de alunos sem aula há praticamente 60 dias, um discurso renitente do governo que contesta até as decisões judiciais sobre o pagamento dos salários dos professores e com exceções de uma reportagem de TV aqui e ali ou de um comentário de apresentador, quem parece socialmente incomodado com a greve e suas consequências.

Quando a polícia para e todo mundo fica com medo de sair às ruas e deixa de fazer compras, a economia do país e o medo da violência crescer ainda mais fazem a população comum sair do silêncio, mesmo que seja para dizer absurdos. Quando o transporte público para e os empregados não podem ir trabalhar e o comércio e a indústria veem essas ausências transformadas em perda concreta de dinheiro, dá-se um jeito de forçar o poder público a se virar nos 30, negociar o que quer que seja para a ordem das coisas se restabelecer. E a cidade vazia, os shopping centers vazios e a paisagem das ruas sem polícia ou sem ônibus geram excelentes imagens de TV.

OFENDIDOS - Já milhares de meninos e meninas pobres, sem aula, cada um em sua casa, sem poder nenhum, que imagem haverão de gerar para o telespectador? A lógica parece simples e não é da televisão, mas, antes, da sociedade. Quando os policiais ou os metroviários e rodoviários cruzam os braços, a sociedade compreende imediatamente que o seu presente, o imediato, o aqui e o agora estão comprometidos. E como pode o direito de ir e vir do cidadão ser assim cerceado, pensa a maioria e aponta a metralhadora de pressão para os governantes descansados, obrigando-os a reagir.

Já os professores da rede pública, se cruzam os braços, quem se importa? Isso não diz respeito ao presente de ninguém, somente ao futuro, e mesmo assim já incerto, de um universo de jovens pobres para quem a greve, cada vez mais silenciosa socialmente, é apenas mais um elemento de consolidação da falta de acesso à cultura, à informação e à formação que os habilitariam a entrar na universidade sem serem ofendidos porque precisam de cotas. A greve dos professores quase não passa na TV porque diz respeito ao futuro alheio. 

Malu Fontes é jornalista e professora da Facom-UFBA.
03 de junho de 2012, A Tarde, Caderno 2, pág. 5.
 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

On the road
Aninha Franco

A trilha de hoje era outra até o momento em que Na estrada, de Walter Salles, se exibiu para a minha intranquilidade provinciana. O ponto de partida do filme é On the Road, romance que Jack Kerouac (1922-1969) escreveu em 1951 e que se tornou referência da Geração Beat. Mas o livro é só o miolo da massa. Salles usou a câmera de maneira, às vezes, crítica, para falar da mais benéfica das revoluções humanas do século 20, a revolução Beat, com Allen Ginsberg (1926-1997), William Burroughs (1914-1997), os hippies, o rock-and-roll, o sexo livre, o uso de drogas, a vida em comunidade, conduzindo o planeta Terra a um estágio menos ameaçador.

Sempre há guerras. A dos anos 1940 foi assustadora. Campos, gás, genocídio, e a multiplicação dessa capacidade Humana de destruir a si mesmo e as outras espécies fotografada e filmada, não tanto como agora, mas em velocidade considerável. Devia ser difícil acreditar nos humanos nos anos 1950, talvez mais que agora. A mesma espécie que condenava a liberdade sexual e o uso de drogas, se matava com requintes de perversidade, como ainda hoje, e aplicava as regras do capitalismo com sofreguidão. O capitalismo, instituído pela revolução industrial do século 18, estava pleno. A mais valia, substituta astuta da escravidão, multiplicava fortunas.

Quem precisava fugir disso, como aquela juventude inteligente e desencantada, ia para a estrada, comportamento de outros transgressores que Salles cita todo o tempo, exibindo o exemplar sebento de No Caminho de Swann, de Marcel Proust, outra estrada, ou a única foto conhecida de Rimbaud que, depois de escrever uma obra pequena e capital, embarcou para sempre, na África, traficando armas, escravos e outras especiarias.

Os muros Beat caíram quando o capitalismo se apropriou de seus signos, da calça azul e desbotada, da música, da estrada, da droga, mas ninguém conseguiu impedir que a liberdade, essa mulher de ombros largos e risada escandalosa, que mete medo aos tiranos, abrisse caminhos. Por causa de suas conquistas, essa foi a melhor revolução que os humanos fizeram no século 20.

Acesso em: 6 de agosto de 2012.